O planejamento estratégico não morreu, mas o processo tradicional está bem doente! Terá cura? Já existem remédios que podem auxiliar no tratamento da doença da VUCA, que é a sigla do inglês que bem designa o mundo em que hoje vivemos: volátil (volatile), incerto (uncertain), complexo (complex) e ambíguo (ambiguous).
O desejado tratamento deve se basear menos nos processos e mais nas pessoas: mais no capital intelectual, no capital social e menos nos ritos; mais na capacidade de lidar com a volatilidade e menos na tentativa de fazer projeções.
Se é cada vez mais difícil antecipar o ambiente de negócios em que vamos nos inserir no futuro próximo, então faz mais sentido focar em como podemos estar melhor preparados para lidar com a volatilidade do que em calibrar modelos de previsão.
Fernando Domingues Jr., sócio-consultor da Mentor, comenta que já aplica no Brasil o Capabilities Based Planning (CBP): "O CBP é uma metodologia adequada a um mundo complexo, onde ao contrário das tradicionais, não é baseada em definição de metas e objetivos futuros, e sim em estabelecer as capacidades que a empresa necessita ter para lidar com as incertezas e com as demandas que o ambiente vai apresentando".Metodologias como o CBP aos poucos se combinam e rearranjam a forma de pensarmos estrategicamente. Vão criando novos modelos. Talvez nunca mais cheguemos a um novo consenso para o modelo "ideal", mas devemos estar continuamente convergindo para um que incorpore progressivamente as características de um processo semiautônomo, que passe a fazer parte do sistema nervoso da organização:
- Engajamento através da participação efetiva dos gestores de operações e executores da estratégia na sua definição;
- Responsabilidade pela gestão e pela execução da estratégia claramente entendida como parte de toda função de gestão, de forma equiparada às responsabilidades táticas e operacionais;
- Monitoramento contínuo do ambiente externo (não apenas na coleta de dados para o ciclo estratégico subsequente, pois não há mais ciclos naturais para os negócios);
- Estratégia viva, na qual as mudanças no ambiente, os riscos e oportunidades pontuais identificados continuamente são questionados e confrontados contra os planos de longo prazo através de fórum apropriado;
- Posicionamento voltado à inovação; uma vez tomadas novas decisões, agilidade de startup na execução;
- Utilização de informações de origem ampla no processo estratégico: observações do campo e conhecimento oriundo da proximidade com mercado e clientes; informação explícita, tácita, factual e informal;
Pierre Wack, famoso por ter introduzido o estudo de cenários prospectivos na Shell no início dos anos 70, especializou-se no exercício de expandir gradualmente o campo de visão dos executivos da empresa, ampliando os modelos mentais dos participantes, um passo por vez. Foi o que chamou de “arte sutil da re-percepção”.
A arte de Wack é um raro exemplo de uma ferramenta do passado que ainda tem o poder de nos ajudar, porque todo o restante do processo que conhecemos foi concebido em outros tempos para uma outra realidade.
"Se há décadas deixamos para trás a Era Industrial para ingressarmos na Era do Conhecimento, é mais do que esperado que nossos antigos modelos não mais se adequem!"
Que não fique a ideia de que a coisa toda é fácil! Transformar o antigo, engessado e estático processo de planejamento estratégico não é trivial. O grande desafio está na transformação das PESSOAS: sua capacitação, engajamento, dinamismo, flexibilidade e agilidade de execução. Na Era do Conhecimento, também é fundamental sua capacidade de capturar, analisar e compartilhar informações.
O processo de capacitação das pessoas envolve muito mais do que os usuais treinamentos técnicos e/ou de aprimoramento de líderes. O momento exige que as organizações invistam no desenvolvimento do pensamento estratégico e na preparação de equipes capazes de dividirem sua atenção entre a gestão da operação e a gestão estratégica.
Talvez ainda se passem muitos anos de aperfeiçoamento até que cheguemos ao nível desejado de um modelo que responda de forma adequada aos desafios, mas, assim como o CBP, existem outros tratamentos que podem ser prescritos e que certamente colocarão o paciente novamente de pé:
• Formação de redes e comunidades;
• Ambientes virtuais de colaboração;
• Painéis de especialistas;
• Design Thinking e Prototipagem;
• Inteligência de mercado e tecnológica;
• Mapeamento de conhecimentos críticos e competências críticas, atuais e futuras;
• Concepção da educação corporativa e seu alinhamento estratégico.
Inicie o tratamento do seu planejamento estratégico imediatamente. Tire o paciente da UTI. Afinal, quem corre risco de vida, é você e sua empresa!
Não deixe a “VUCA” te pegar.
